POSTA RESTANTE
Eu sou um rinoceronte, não um gato -
presença atenta,
pelo macio, olhos, nariz,
ouvidos aguçados.
Não mimo, não esfrego,
não sou rápido. Não sou pra ser agarrado.
Mas sonho e amo/fui amado
como gato:
fui amado sem pensar, ao estilo de Caeiro.
Despertado, no entanto, o
pensamento pela dor,
visto um rinoceronte, não um
gato,
pesei, sufoquei, incomodei.
Como desculpar a presença descuidada e
irritante
de um rinoceronte numa quitinete?
Como suportar o seu peso
basto?
Como não sofrer horrivelmente a falta de espaço?
Como não acusá-lo de irresponsável ou arrogante?
Como não concebê-lo indiferente ao sofrimento crônico?
Como não cozinhar, pouco a pouco,
um pensamento,
uma auto-inferiorização? Ou, o que é o mesmo,
um instrumento
que justifique uma reação?
Ou, o que é o mesmo, uma atitude que
atenue
a barbaridade prestes a se perpetrar, dissimule a doença
crônica
real
e esqueça solenemente o compromisso?
De qualquer modo, um pensamento solitário,
não compartilhado, em si um ato desavisado de separação.
Numa
oposição rígida e absoluta, a solução é direta:
na vida de um contra a do
outro, fui avaliado,
pesado, desamado e rapidamente despejado,
com a
mesma simplicidade e pressa do primeiro amor,
da oferta franca de abrigo e de acolhimento
ao gato.
Ou, antes, cruelmente, como se
enxota, por farta,
um vira-lata ingrato que se havia, por engano,
abraçado,
protegido e
alimentado.
O que torna extrema a crueldade, se o ato não é perverso,
é que o praticante não a percebe: é uma forma expressiva.
A forma vê, não se vê, acusa, não se reconhece,
rebate, não desconfia de equívoco, apaga a autocrítica
enquanto demonstra que o outro não a tem.
Como a lógica inflexível e impiedosa
do pensamento sexista, homofóbico ou racista.
Como dizer, a quem só toma vinho doce, que há vinho?
O que significa o biscoito fino pra quem só come Mirabel?
Pois se antes a lógica dizia: - "Case comigo,
vamos comprar anel!"
-
ou insuflava: -
"você
é meu marido, não se demore, venha
logo pra casa" -,
ou emprestava, bondosa:
- "leve aqui, dinheiro, para
as suas necessidades" -
hoje ela pensa:
"Sempre há uma marquise
que abriga um desamparado".
Calcula bem, custo e benefício, a mãe
que enterra vivo o recém-nascido,
ou o abandona num saco dentro do lago,
anulada que está pela escravização do pirralho.
Não parece haver saída melhor do que isso:
a derrocada mais dramática possível,
o abandono do jogo pela derrubada das peças,
deixando o rito por ela mesma invocado,
como se o rito pudesse mover-se sozinho;
sair escondida, como se nada houvesse acontecido,
vestindo a máscara da subjetividade,
como se não houvesse saldo, como se ferir em silêncio
e
mortalmente
fosse necessário, como se largar
a carruagem a meio caminho fosse um sinal divino,
um bem comum, um ato de respeito e cuidado pela dignidade.
O rinoceronte não chora por pegajoso, é claro.
Não ama a cola da inautenticidade, nada quer com ela,
mas prende-lhe um adesivo mais forte:
simbolizar a dor, transformá-la em plástico,
rearticular os restos humanos resgatados do trágico,
respirar de novo, perguntar ao ar:
o que há no vilipêndio à dignidade,
por parte de quem se espera por ela, pelo menos por profissão,
pelo menos por honra, não menoscabo,
mas a mais sagrada veneração?
Porque o rinoceronte sabe o quanto é difícil
dar fim a um relacionamento:
o quanto se espera, o quanto se sofre.
Mas não entende o desrespeito cego e simplório.
Não entende ser despejado por simplesmente ocupar espaço,
que se lhe minta: - "Você é irritante!", - "Quero dar um tempo",
- "Isso é coisa minha", - "Não tenho explicação".
Que o executante volte exclusivamente a si
o foco da câmera, e tire 30.000 fotos
na hora de degolar o culpado.
Como se a covardia não fosse flagrável,
como a deixar opaco o fato de ele estar ali convidado,
como se a quitinete não lhe desse todo o sustento,
como se a oferta de abrigo não fosse um suporte,
como se nada nunca ninguém tivesse combinado.
Depois, sem-teto, sozinho, desabrigado, anulado,
saltei
desesperado, azunhei, agarrei,
trepei nos telhados, passei fome e miei.
Não
adiantou, só posso ser amado como sou:
lento, grosso, cego, incompreensível e
inagarrável.
Agora espero, no frio glacial e indiferente,
na dor gelada e rígida da solidão,
dor acompanhada da imposição,
espero como se fosse possível esperar.
Espero soterrado no fundo do mato,
espero afogado no leito do lago,
espero respirar
a brisa, o perfume,
como se no fundo houvesse
o respiro do ar,
como se fosse possível sorrir, estender a mão,
receber seu saldo: amar/ser amado, ser solidário, acompanhar.
A ética, o rito, a responsabilidade, a próxima jogada do jogo,
cumprir o cerimonial proposto,
chegar ao final,
render seus próprios termos cortando a fita da chegada,
vencer seus defeitos vencendo os defeitos
do outro,
correndo cúmplice, parceiro e amante.
Não uma mãe, que cuida,
mas a mulher,
que goza,
de igual pra igual, sem mediação,
sem pensamento,
despojada do ideal verde-amarelado, do estereótipo surrado,
como puta de pernas abertas para o pau de um rinoceronte:
despida
da lógica social, pegajosa e gordurante
da margarina, da felicidade e da mesa familiar.
Que surja uma boa vontade em vez da
má.
Porque o rinoceronte é quase cego, um coitado,
mas não é
doente, está longe de ser doente:
não é o pensar o estar doente dos olhos?
Se o impossível acontecesse, se o gelo derretesse,
se a
pedra pudesse ser atravessada
por uma flecha dourada,
ver-se-ia debaixo da grande couraça
o pulso de um coração maciço e
gigante,
nada do que se via pela forma do outro
pensar,
toneladas de carinhos e cuidados,
apenas um
toque de olhar, outra moda -
uma mão, uma pegada, um piso, um sentido,
um abraço amplo, forte, sufocante e profundo,
um abraço arrogante, infantil, desacatado:
um ninho, um vôo, uma teia, uma corda estendida,
sobre ela uma bailarina dançando o ritual da amizade.
JJ
23/11/2007.